You are currently browsing the monthly archive for Fevereiro 2011.
Numa conversa acerca da reforma longamente pensada por Freitas Branco para o ensino artístico e que o governo fascista estava a cartar, responde o Ministro da Instrução a Luís de Freitas Branco:
“As reformas da instrução são como as árvores, quanto mais se cortam melhor produzem.”
in Diário, Luís de Freitas Branco, 17/02/1937
Mais uma vez retirado do livro Luís de Freitas Branco de Nuno Bettencourt Mendes, Ana Telles e Alexandre Delgado.
Disclaymer: Qualquer semelhança entre as declarações de um ministro da ditadura e as políticas actuais relativamente ao ensino artístico são pura coincidência.
A inutilidade dos Exames no conservatório, trabalho em que estou empenhado neste momento, irrita-me. Um simples vilancico que se transcrevesse para notação moderna, na Biblioteca de Évora, era mais útil ao Estado e à Nação, do que um ano inteiro do estúpido trabalho oficial que sou obrigado a fazer.
Luís de Freitas Branco, Diário, 20/07/1935
Retirado do livro Luís de Freitas Branco de Nuno Bettencourt Mendes, Ana Telles e Alexandre Delgado.
A actualidade está nos desabafos que oiço dos meus colegas professores porque não conseguem ser músicos a tempo inteiro e na falta de meios para a investigação musicológica. Mas sobretudo, no desdenho com que estas actividades são ainda hoje vistas e tratadas pelo Estado.
Tanta converseta à volta da “geração parva”, “geração rasca”, gentalha que enche a boca com adjectivos sem saber o que dizem… Não ponho ligações, porque seriam muitas. Uma das coisas que mais se diz é que esta geração se diz enganada pelo sistema porque um curso não é garantia de emprego. De facto não é, mas a questão não é essa.
A questão é que os empregos estão aí, existem. Não falta a de procura de precários a 500 euros (com exigência de cursos superiores), estagiários não remunerados, etc. Ou seja, trabalho para licenciados e pós-graduados — postos de trabalho, coisas para fazer — não falta. Há quem procure gente jovem com muita iniciativa, quem procure gente experiente que consiga ter mais autonomia. Só não querem pagar. Pequenino detalhe.
Se há 2 milhões de precários, há 2 milhões de postos de trabalho.
Só falta a decência, o trabalho já existe.
galeria_nova.html?mul_id=13386677
A ligação acima é para uma reportagem de hoje da TVI sobre uma pobre fábrica têxtil, que, coitadinha, tem que recusar encomendas por causa dos preguiçosos lá da terra que preferem o subsídio de desemprego a um salário, por pouco que seja. Ok, esta é a ficção. Curiosamente em forma de reportagem jornalística.
Grave é que não é a primeira ficção “jornalística” que vejo neste género. Já há algum tempo a RTP dedicou também toda uma reportagem a este problema dos pobres empresários que não podem trabalhar por causa desses párias que vivem do subsídio de desemprego. Curiosamente também, os pobres empresários não ficam anónimos, querem que o nome da sua brava empresa apareça na reportagem. Eu chamo-lhe publicidade encapotada (paga, será?), mas também lhe podem chamar outra coisa qualquer.
Jornalismo é que não, se faz favor. É uma ofensa a qualquer verdadeiro Jornalista.
Se estas são as ficções, vamos aos factos. O que sabemos da indústria têxtil?
Que é conhecida pelo trabalho infantil, por salários abaixo do salário mínimo, que os patrões desaparecem do dia para noite, passam cheques sem cobertura, salários em atraso, fábricas que fecham sem pré-aviso, despedimentos colectivos repentinos. Felizmente nem todos os empresários são escroques a precisar de um tribunal, mas este comportamento está longe de ser raro. É uma possibilidade que TEM absolutamente que ser tida em conta quando se quer fazer trabalho jornalístico.
Alguma jornalista foi efectivamente investigar o que se passa nestas “entrevistas de emprego”? Não é complicado… Faz-se o papel de candidata ao posto com um CV típico de quem se candidata a um emprego deste género e pergunta-se quais são as condições.
Muitas vezes a resposta é que não pagam exactamente o salário mínimo… Não há exactamente contratos… Se puderem continuar com o subsídio e trabalhar de noite para não chamar a atenção, a empresa até agradece e paga debaixo da mesa. Assim não há encargos, nem segurança social nem impostos. E o trabalhador finge que continua desempregado. Feitas as contas, se a pessoa não morar na porta ao lado da fábrica e ainda tiver que pagar transportes e alimentação, muitas vezes estará a pagar para trabalhar. Esta é a realidade.
Será que a “jornalista” investigou se este era o caso antes de fazer o seu anúncio publicitário? Filmou uma sala cheia de mulheres a trabalhar, mas o único que falou na reportagem foi o dono da fábrica. Ouviu alguma das trabalhadoras ou a palavra do jovem é suficiente?
Nesta página a informação é de que a empresa tem 1 empregado. Como assim, 1 empregado, se a reportagem mostrava uma sala cheia de gente a trabalhar afincadamente e o jovem se queixava de falta de mão-de-obra?!



