Tal como eu calculava, o registo meio fadista e a colocação escura da Mísia resultam lindamente no tango, ou de como o tango e o fado têm muito em comum.
O ambiente, a visão do mundo, a nostalgia; estas duas canções urbanas nasceram mais ou menos na mesma época, tiveram muitas influências comuns, nomeadamente africanas e de marinheiros. O fado foi dançado até ao início do século passado, e nasceu, tal como o tango, nos bordéis e nos meios mais populares.

Resumindo, gostei de ouvir a Mísia. Além do mais, é raríssimo ter uma portuguesa num papel principal naquela casa (S. Carlos). Habitualmente os portugueses ficam com os papéis secundários.

O actor, Manuel Callau, era também muito bom.

Os bailarinos-percussionistas foram fantásticos (Elizabeth Davies incluída). Digo-o desta forma porque os bailarinos tinham uma intervenção directa na música através de gestos sonoros que se integravam na percussão (rápidos, difíceis, e muito bem feitos); a Elizabeth Davies, porque dança sempre quando toca, e é um prazer vê-la tocar.

O tenor, Keith Lewis, é um tenor lírico da música “clássica” e ficou no clássico-lírico. Tanto lhe deu que fosse Piazzola ou Wagner… demasiado vibrato, demasiado formal. Cantava bem, mas esteve noutra.

O coro falado: visivelmente tiveram pouco tempo de ensaio (poupanças no MC… teve que se pagar o Museu do Berardo…) e a fala estava demasiado ritmada em vez de parecer natural.

Do novo estilo de encenações do S. Carlos, que tem sido relativamente coerente nas últimas coisas que tenho visto: muito bom!

Gostei desta operita-tango assim que a ouvi, há muitos anos, e esperei esses anos para a ver. Ou seja, as minhas expectativas estavam altas. E foi muito bom não as sentir defraudadas!

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