Ao escrever o post abaixo lembrei-me de um outro aspecto de que gosto em Dublin. As estátuas de Dublin, semelhantes à do Joyce ali em baixo, estão colocadas na cidade como parte dela, como transeuntes.

Molly Malone lá vai pela rua com o seu carrinho de mão, tal como na canção, a apregoar ameijoas e mexilhão.

Joyce passeia com o seu ar talvez um pouco dandy. Wilde está deitado numa rocha à beira de um lago a fazer esgares a quem passa.

Os mais famosos cruzam-se com personagens imaginárias ou anónimas pelas ruas. As vítimas da fome não estão no alto, bem longe, para nos sentirmos confortáveis e alimentadinhos a olhar cá de baixo: passeiam no meio de nós, obrigam-nos a sentir a fome deles.

Em Lisboa, por exemplo, gosto do Pessoa a tomar café com quer quiser dar-lhe conversa, com a cadeira ao lado em jeito de convite.

Já do Camões ou do Chiado nem por isso. Estão lá em cima, quietos, formais. Não dá vontade nenhuma de ir falar ao Chiado, de saber quem foi, porque está ali. Uma personagem, mesmo que imaginária ou anónima, tem sempre algo que a distingue e que a faz merecer uma estátua. Deveríamos portanto saber quem foi, que importância teve/tem.

Todos os dias passamos nos Restauradores, alguma vez os olhámos nos olhos? O Marquês é uma Rotunda, uma Estação de Metro ou um leão com um tipo ao lado para se pendurar os cachecóis em alturas de futebóis. Tem um pedestal tão alto que ninguém diria que era humano. Mais um, como os outros (enfim… mais tirano que a maioria dos outros, mas ainda assim humano).

Há várias cidades com estátuas destas. Gosto dessas estátuas que nos obrigam a querer saber, que instigam a curiosidade até dos mais distraídos.

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