Ilse Weber

Ilse Weber

Fui ver o concerto da Anne Sophie von Otter na Gulbekina na sexta-feira, uma homenagem aos presos de Therezín, que além dos trabalhos forçados eram ainda obrigados a divertir as tropas, fingindo ser muito felizes para os inspectores da Cruz Vermelha.

Foi considerado um campo modelo, de facto não havia uma linha de montagem da morte como em Auschwitz, mas as condições eram muito más, as horas de trabalho demasiadas, a comida diminuta e os maus tratos eram das SS (está tudo dito). Havia muita mortalidade por doença e fadiga e comboios regulares para Auschwitz com todos os “inúteis” (velhos, doentes e crianças).

O concerto foi organizado como se fosse um dos saraus que os prisioneiros eram forçados a fazer: peças deles próprios (prisioneiros), música ligeira, outra erudita, alguma nas fronteiras, Bach, algumas canções, sonatas, coisas com voz e outras só instrumentais.

As peças foram sendo apresentadas pelo grupo, que explicava o contexto da obra ou pedaços da vida dos seus compositores. As histórias são os mesmos relatos de bravura e heroicidade que  conhecemos dos campos da morte: mães que salvam os filhos mas nunca mais os vêem, gente que dá a vida por solidariedade e amor. Estas pessoas existiram e fizeram MESMO estas coisas. São histórias que nos comovem, mas… e no momento? Qual de nós tomaria a mesma decisão?

Sendo uma homenagem e dado o contexto, não poderia ser um recital nos moldes tradicionais. Seria quase ofensivo se a cantora se apresentase num vestido de seda, com cauda e cores garridas. Anne Sophie apresentou-se com umas calças castanhas de corte banal, que qualquer um de nós tem em casa para ir tomar café, uma t-shirt e um blazer castanho com flores. A roupa, aqui, não é um detalhe. Mandam os cânones que uma cantora se apresente “mascarada” de Diva, com um enorme vestido maravilhoso e muita gente defende ainda que “calças nem pensar!” Mesmo que de cerimónia! Quebrar todas estas regras numa sala como a Gulbenkian é no mínimo audaz.

Anne Sophie von Otter

Anne Sophie von Otter

Depois, o alinhamento do concerto. Os recitais de canto são habitualmente da cantora com alguém lá atrás a acompanhar. Quando Anne Sophie von Otter é a cantora, Bengt Forsberg é o Pianista (não o acompanhador, mas o Pianista); e neste caso fizeram-se acompanhar por Daniel Hope no violino e Bebe Risenfors na guitarra, contrabaixo, acordeão e percussão. No alinhamento do concerto houve espaço para todos, no arranjo das canções não escritas também. Quando não cantava, Anne Sophie sentava-se numa cadeira, discreta, dando o palco e o destaque aos instrumentistas.

Esta simplicidade e igualdade de tratamento não foi específica deste concerto desta cantora. Se o guarda-roupa foi escolhido para uma homenagem aos presos de Therezín, o destaque dado aos instrumentistas não foi. Já vi esta mesma cantora há alguns anos, na mesma sala, dedicar metade do concerto à música instrumental. Antes do intervalo ela cantou com um vestido lindíssimo, seguindo todo o “guião” formal do que deveria ser um recital. Depois do intervalo entrou o quinteto (cordas e piano) e uma senhora de calças de ganga e óculos, que se sentou atrás do pianista para lhe virar as páginas e que só ao fim de algum tempo percebemos ser Anne Sophie von Otter. Qualquer instrumentista percebe a importância desta tarefa e de como a melhor pessoa para o fazer é alguém com quem se trabalhe há muito tempo. Mas não é óbvio para a maioria dos cantores prestar-se a isso.

A pura simplicidade numa cantora sai fora de todas as regras do ritual que é o recital de canto. É esta a audacidade de von  Otter e é o que faz dela uma estrela mais brilhante que a maioria.

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