Então e as crianças que já aí andam? As que já cá estão?!

Por um lado, as crianças que estão neste momento em instituições públicas e que estariam muito melhor numa família. Que talvez pudessem encontrar um lar se pudessem ser adoptadas por um casal, qualquer que seja, desde que cuide e goste dela. Para essas crianças, uma lei feita agora talvez pudesse ainda vir a tempo. Adiando a lei, adiam-se as crianças. Se a lei da adopção passar daqui a 5 ou 10 anos, poderá ser muito boa para as crianças dessa altura, mas as crianças de hoje serão já adultos daqui a 10 anos.

Por outro lado, as crianças filhas de pessoas homossexuais e que vivem com a sua família. No caso de morte dos pais, estas crianças são arrancadas à família que conhecem, porque a família não é reconhecida como tal. Em caso de doença, os parceiros dos pais, que para a criança são parte da família, apenas podem visitá-la nos horários das visitas gerais e não têm qualquer direito enquanto família.

Se tomarmos como exemplo o que se passou com os filhos de pais divorciados, podemos passar por cima de muitos obstáculos e aprendendo, saltamos etapas. Durante muitas gerações os pais proibiam os filhos de se dar com os filhos de pais divorciados. Estas crianças eram descriminadas na escola e as que não souberam reagir da melhor forma ficaram com marcas profundas para toda a vida. Há vinte anos já não havia tanta descriminação, mas ainda havia alguns professores que achavam que aqueles meninos não conseguiam aprender e que teriam sempre que ser tratados como os “coitadinhos”.

Hoje já não é assim, mas não porque tenham desaparecido os divórcios! Foi a sociedade que deixou de marginalizar o divórcio, os divorciados e os seus filhos. No caminho ficaram milhares de crianças que cresceram estigmatizadas e traumatizadas durante gerações e gerações. Podia ter sido evitado. Claro que há outros  tantos milhares que felizmente tiveram professores inteligentes e que souberam lidar com o divórcio dos pais da melhor forma, ainda bem, mas não compensa de forma nenhuma as que não o conseguiram.

Não podemos agora aprender com a experiência anterior e saltar já algumas gerações? Dar hoje às crianças que o são agora aquilo que de qualquer modo é inevitável com o tempo?

É urgente ver as coisas pelo  outro lado, o da criança! Reconhecer o direito da criança a ser adoptada por quem goste e cuide bem dela, qualquer que seja a cor do cabelo, o tamanho de sapatos ou a orientação sexual! Reconhecer à criança o direito a ser sempre acompanhada e acarinhada pela família que esta reconhece, qualquer que seja a sua constituição!

A questão é que não estamos a falar de hipóteses. São reais, são crianças e andam por aí! Chamam-se Mário, Marta, Zé, António, Maria, Joana… têm 5 ou 10 ou 7 ou 3 anos. Andam na escola primária ou no infantário, na escola secundária…

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