Caro Sr. Primeiro-Ministro,

Moro em Lisboa num bairro onde a distribuição foi privatizada há muitos anos; falo portanto com parcial conhecimento de causa.
O que aconteceu desde essa privatização é que na realidade quase deixou de haver distribuição de correio. Não é lucrativo ter o número suficiente de carteiros para que haja distribuição diária em todo o bairro, portanto, tal como no tempo dos trovadores, não recebemos correio diariamente — esperamos pacientemente pelo trovador que venha anunciar as boas novas. Correio nacional pode levar mais de uma semana a chegar-nos à caixa do correio, por falta de distribuição desde a estação dos correios aqui ao lado até ao prédio. Parece irreal que tal coisa se passe numa capital de um país europeu? Parece. E no entanto… eis-nos em Alcântara!
A distribuição de embalagens, pacotes, encomendas, desapareceu por completo. Deixam-nos um postal a dizer que tocaram à porta a horas em que estávamos em casa e teríamos atendido e temos nós que ir buscar a encomenda à estação de CTT.
Queixamo-nos? Claro! Os CTT declinam imediatamente qualquer responsabilidade, que deve ser assacada à empresa distribuidora. No entanto, o nosso “contrato” de distribuição de correio é com os CTT — é aos CTT que entregamos as nossas cartas, é aos CTT que compramos os selos — e é portanto junto dos serviços de atendimento ao cliente dos CTT que devemos reclamar. Os CTT é que são os clientes da empresa e poderiam portanto fazer reclamação. A empresa distribuidora não nos reconhece como clientes e não toma qualquer reclamação em conta. Utilizamos forçadamente um serviço privado que não contratámos, que não queremos, cujo fornecedor nem sequer temos liberdade de escolher e a quem não pode ser assacada qualquer responsabilidade, porque não contratámos nada directamente com essa empresa.
Não duvido que uma empresa cujo livro de reclamações permanece impecavelmente branco independentemente do mau funcionamento ou mesmo da ausência de funcionamento, seja altamente lucrativa — não gera emprego como deveria por não ter o número de funcionários necessários a uma correcta prestação do serviço a que se propõe, mas lucros terá certamente!
Mas, se este é o caos que acontece com a privatização de apenas uma das etapas que o nosso correio percorre, o que será se todo o percurso for privatizado?
Por isso, Senhor Primeiro-Ministro é que lhe chamei “caro” no início desta carta. Sua Excelência está a sair-nos muito mais dispendioso do que anunciara. E esta privatização é cara, muito cara, com custos que dificilmente serão quantificáveis neste momento, porque os custos da ineficiência são sempre difíceis de calcular.
Repare, Muito Caro Senhor Primeiro-Ministro, que as cartas pessoais são cada vez menos — ganhámos o hábito dos e-mails e dos telemóveis. As cartas que hoje nos chegam às caixas de correio são maioritariamente relativas a assuntos de negócios ou oficiais: recebemos cartas das Finanças, dos bancos, dos fornecedores de Água, Luz, Telefone, Internet, Telemóveis, etc. Quais são os custos se estas cartas deixarem de chegar a horas? Para as empresas, para o Estado, para o Estado através da ajuda às empresas, para a pessoas que tiverem que pagar multas de atraso nos pagamentos — não por atraso de iniciativa própria, mas porque a carta não chegou? Qual o custo real da ineficiência a médio e longo prazo, quanto dinheiro estamos realmente a gastar nesta privatização?
E quão ridículo será explicarmos aos nossos amigos que nos visitam de outros países que não temos um serviço de correios a funcionar? Qual o custo na imagem do país no atraso do correio internacional? Devo acrescentar aqui que já me aconteceram mal-entendidos vários acerca de compras de livros por internet, que para os fornecedores são incompreensíveis — “Como assim, o livro não chegou, se o enviámos há mais de um mês, com todos os dados verificados e correctos”? É que não há distribuição de encomendas aqui neste bairro — e ainda só foi privatizada a distribuição!
Quais os custos reais para os negócios internacionais e para a imagem de Portugal no estrangeiro (já pouco abonatória em termos de eficiência)?
Quanto aos CTT nas terras mais pequenas, nem sequer imagino as consequências, porque sou de facto citadina. Como serão as poucas aldeias que ainda sobram se também o posto de atendimento dos CTT — muitas vezes na papelaria ou no café central — deixar de ter este serviço? Quais são os custos e as consequências para o isolamento? Sabemos perfeitamente que os accionistas da empresa privada que tomar conta dos CTT não vão ter estes aspectos em conta quando tomarem decisões na sua Assembleia Geral. É ao Estado que compete pensar no interesse dos cidadãos.
Por isso, Caríssimo Senhor Primeiro-Ministro, solicito que tome em conta também o médio e longo prazo. O lucro de qualquer negócio não inclui apenas a receita imediata decorrente do preço de venda, mas também todos os custos e benefícios que deixam de existir por aquele negócio deixar de ser nosso. No caso de uma empresa pública a sua venda tem que considerar o custo da ineficiência (que deixa de estar sob controlo do Estado) — para o Estado e para todos os cidadãos e empresas nacionais e estrangeiras que utilizem o serviço em causa.

Agradeço a sua atenção.
Com respeitosos cumprimentos,

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