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O INE revelou há poucos dias o número de 11% como correspondendo ao nível de desemprego do quarto trimestre de 2010. Mas este número é calculado por amostragem. Por outro lado, põe fora da designação de desempregado qualquer pessoa que tenha trabalhado pelo menos uma hora na última semana. O número real do desemprego será portanto muito superior.
O actual sistema económico comandado pelo capital financeiro e pela especulação criou e banalizou modelos de subemprego que servem para degradar e desvalorizar o trabalho, fugir a impostos, engordar lucros de forma imoral (e irracional) e subjugar os trabalhadores. Como precários, largos milhares de trabalhadores não têm forma de questionar as condições impostas. Como precários, estão fora da legislação laboral, que estabelece direitos duramente adquiridos a que agora se chamam muito convenientemente “privilégios.”
Não há uma geração com direitos e outra sem direitos. Essa é a narrativa conveniente da direita dos interesses que quer liquidar os direitos de todos e de todas as gerações, em nome de uma competitividade desumana e da invasão de toda a vida humana pelos sacrossantos mercados e pelo lucro a qualquer preço.
A precariedade atinge todos os trabalhadores, com e sem formação académica, de todas as profissões e estratos sociais e não discrimina gerações. Atinge os mais velhos que, tendo perdido o emprego, não conseguem voltar a encontrar estabilidade no mercado de trabalho, e atinge todas as gerações com menos de 45 anos, que nunca tiveram um emprego estável. Atinge os seus pais, que na reforma deixam de poder contar com a ajuda dos filhos, miseravelmente pagos. Atinge as crianças, que vivem em famílias onde o dia começa com emprego, mas nunca se sabe como acaba. Atinge todos os que têm contrato permanente, porque também sofrem a pressão para a desvalorização dos salários e do seu trabalho.
Atinge ainda todos os que estão nos quadros dos seus locais de trabalho, uma vez que os seus postos de trabalho seriam muito mais baratos se preenchidos por um precário ou estagiário. Esses trabalhadores tornam-se também precários, uma vez que o primeiro pretexto — uma recusa de fazer horas extraordinárias, uma doença, um erro apenas — será a oportunidade para tentar despedi-los, substituindo-os.
As próprias empresas teriam a ganhar com trabalhadores empenhados e conhecedores da empresa e do seu meio e interessados no seu desenvolvimento e sucesso; trabalhadores cuja preocupação maior não é o futuro no fim do estágio ou como sobreviver com quinhentos euros ou menos. A qualidade dos serviços piora drasticamente com a rotatividade permanente de precários e estagiários. As empresas tornam-se precárias, vítimas de uma irracionalidade financeira de muito curto prazo para distribuição de lucros aos accionistas.
Diz-se também que, com a desculpa da crise, não há emprego. Mas se quase todos lá vamos arranjando uns meios-tempos aqui ou ali, coisas temporárias, estágios, recibos verdes e quejandos, há trabalho. Mas o que este sistema predador orientado exclusivamente para o lucro não quer é trabalho valorizado e com direitos, ou seja, empregos! O que não há é respeito pelo trabalho.
Assim, PRECÁRIOS SOMOS TODOS!

No dia 12 de Março, VAMOS EXIGIR RESPEITO PELO NOSSO DIREITO AO FUTURO E TRABALHO COM DIREITOS! Vamos dizer que EXIGIMOS RESPEITO pelo trabalho que já fazemos!
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Numa conversa acerca da reforma longamente pensada por Freitas Branco para o ensino artístico e que o governo fascista estava a cartar, responde o Ministro da Instrução a Luís de Freitas Branco:

“As reformas da instrução são como as árvores, quanto mais se cortam melhor produzem.”

in Diário, Luís de Freitas Branco, 17/02/1937

Mais uma vez retirado do livro Luís de Freitas Branco de Nuno Bettencourt Mendes, Ana Telles e Alexandre Delgado.

Disclaymer: Qualquer semelhança entre as declarações de um ministro da ditadura e as políticas actuais relativamente ao ensino artístico são pura coincidência.

A inutilidade dos Exames no conservatório, trabalho em que estou empenhado neste momento, irrita-me. Um simples vilancico que se transcrevesse para notação moderna, na Biblioteca de Évora, era mais útil ao Estado e à Nação, do que um ano inteiro do estúpido trabalho oficial que sou obrigado a fazer.

Luís de Freitas Branco, Diário, 20/07/1935

Retirado do livro Luís de Freitas Branco de Nuno Bettencourt Mendes, Ana Telles e Alexandre Delgado.

A actualidade está nos desabafos que oiço dos meus colegas professores porque não conseguem ser músicos a tempo inteiro e na falta de meios para a investigação musicológica. Mas sobretudo, no desdenho com que estas actividades são ainda hoje vistas e tratadas pelo Estado.

Tanta converseta à volta da “geração parva”, “geração rasca”, gentalha que enche a boca com adjectivos sem saber o que dizem… Não ponho ligações, porque seriam muitas. Uma das coisas que mais se diz é que esta geração se diz enganada pelo sistema porque um curso não é garantia de emprego. De facto não é, mas a questão não é essa.

A questão é que os empregos estão aí, existem. Não falta a de procura de precários a 500 euros (com exigência de cursos superiores), estagiários não remunerados, etc. Ou seja, trabalho para licenciados e pós-graduados — postos de trabalho, coisas para fazer — não falta. Há quem procure gente jovem com muita iniciativa, quem procure gente experiente que consiga ter mais autonomia. Só não querem pagar. Pequenino detalhe.

Se há 2 milhões de precários, há 2 milhões de postos de trabalho.
Só falta a decência, o trabalho já existe.

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A ligação acima é para uma reportagem de hoje da TVI sobre uma pobre fábrica têxtil, que, coitadinha, tem que recusar encomendas por causa dos preguiçosos lá da terra que preferem o subsídio de desemprego a um salário, por pouco que seja. Ok, esta é a ficção. Curiosamente em forma de reportagem jornalística.

Grave é que não é a primeira ficção “jornalística” que vejo neste género. Já há algum tempo a RTP dedicou também toda uma reportagem a este problema dos pobres empresários que não podem trabalhar por causa desses párias que vivem do subsídio de desemprego. Curiosamente também, os pobres empresários não ficam anónimos, querem que o nome da sua brava empresa apareça na reportagem. Eu chamo-lhe publicidade encapotada (paga, será?), mas também lhe podem chamar outra coisa qualquer.

Jornalismo é que não, se faz favor. É uma ofensa a qualquer verdadeiro Jornalista.

 

Se estas são as ficções, vamos aos factos. O que sabemos da indústria têxtil?

Que é conhecida pelo trabalho infantil, por salários abaixo do salário mínimo, que os patrões desaparecem do dia para noite, passam cheques sem cobertura, salários em atraso, fábricas que fecham sem pré-aviso, despedimentos colectivos repentinos. Felizmente nem todos os empresários são escroques a precisar de um tribunal, mas este comportamento está longe de ser raro. É uma possibilidade que TEM absolutamente que ser tida em conta quando se quer fazer trabalho jornalístico.

Alguma jornalista foi efectivamente investigar o que se passa nestas “entrevistas de emprego”? Não é complicado… Faz-se o papel de candidata ao posto com um CV típico de quem se candidata a um emprego deste género e pergunta-se quais são as condições.

Muitas vezes a resposta é que não pagam exactamente o salário mínimo… Não há exactamente contratos… Se puderem continuar com o subsídio e trabalhar de noite para não chamar a atenção, a empresa até agradece e paga debaixo da mesa. Assim não há encargos, nem segurança social nem impostos. E o trabalhador finge que continua desempregado. Feitas as contas, se a pessoa não morar na porta ao lado da fábrica e ainda tiver que pagar transportes e alimentação, muitas vezes estará a pagar para trabalhar. Esta é a realidade.

Será que a “jornalista” investigou se este era o caso antes de fazer o seu anúncio publicitário? Filmou uma sala cheia de mulheres a trabalhar, mas o único que falou na reportagem foi o dono da fábrica. Ouviu alguma das trabalhadoras ou a palavra do jovem é suficiente?

Nesta página a informação é de que a empresa tem 1 empregado. Como assim, 1 empregado, se a reportagem mostrava uma sala cheia de gente a trabalhar afincadamente e o jovem  se queixava de falta de mão-de-obra?!

Auditoria

Que se lixe a troika