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A ligação acima é para uma reportagem de hoje da TVI sobre uma pobre fábrica têxtil, que, coitadinha, tem que recusar encomendas por causa dos preguiçosos lá da terra que preferem o subsídio de desemprego a um salário, por pouco que seja. Ok, esta é a ficção. Curiosamente em forma de reportagem jornalística.

Grave é que não é a primeira ficção “jornalística” que vejo neste género. Já há algum tempo a RTP dedicou também toda uma reportagem a este problema dos pobres empresários que não podem trabalhar por causa desses párias que vivem do subsídio de desemprego. Curiosamente também, os pobres empresários não ficam anónimos, querem que o nome da sua brava empresa apareça na reportagem. Eu chamo-lhe publicidade encapotada (paga, será?), mas também lhe podem chamar outra coisa qualquer.

Jornalismo é que não, se faz favor. É uma ofensa a qualquer verdadeiro Jornalista.

 

Se estas são as ficções, vamos aos factos. O que sabemos da indústria têxtil?

Que é conhecida pelo trabalho infantil, por salários abaixo do salário mínimo, que os patrões desaparecem do dia para noite, passam cheques sem cobertura, salários em atraso, fábricas que fecham sem pré-aviso, despedimentos colectivos repentinos. Felizmente nem todos os empresários são escroques a precisar de um tribunal, mas este comportamento está longe de ser raro. É uma possibilidade que TEM absolutamente que ser tida em conta quando se quer fazer trabalho jornalístico.

Alguma jornalista foi efectivamente investigar o que se passa nestas “entrevistas de emprego”? Não é complicado… Faz-se o papel de candidata ao posto com um CV típico de quem se candidata a um emprego deste género e pergunta-se quais são as condições.

Muitas vezes a resposta é que não pagam exactamente o salário mínimo… Não há exactamente contratos… Se puderem continuar com o subsídio e trabalhar de noite para não chamar a atenção, a empresa até agradece e paga debaixo da mesa. Assim não há encargos, nem segurança social nem impostos. E o trabalhador finge que continua desempregado. Feitas as contas, se a pessoa não morar na porta ao lado da fábrica e ainda tiver que pagar transportes e alimentação, muitas vezes estará a pagar para trabalhar. Esta é a realidade.

Será que a “jornalista” investigou se este era o caso antes de fazer o seu anúncio publicitário? Filmou uma sala cheia de mulheres a trabalhar, mas o único que falou na reportagem foi o dono da fábrica. Ouviu alguma das trabalhadoras ou a palavra do jovem é suficiente?

Nesta página a informação é de que a empresa tem 1 empregado. Como assim, 1 empregado, se a reportagem mostrava uma sala cheia de gente a trabalhar afincadamente e o jovem  se queixava de falta de mão-de-obra?!

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