Isto foi o que escrevi em 2006. Ainda não consegui voltar a ver o À Espera de Godot e a tua voz continua no livro de poemas do Gedeão. Talvez um dia… Agora ainda me fazes muita falta.

A grande mentira

O desmentido não veio nessa noite, nem na seguinte. E até hoje, nada… passaram dez anos. Bem sei que já o disse e que pareço repetir-me, mas o Mário Viegas e o Zeca são as duas pessoas que nunca conheci pessoalmente, e que me fazem falta como se fossem próximos.


Temos esta sorte, que não sabemos, de ter um país cheio de excelentes actores e muitos e muito bons grupos de teatro. O Mário Viegas era destes, aquele de que eu mais gostava e admirava. Há quantos anos foi “Na solidão dos campos de algodão” no Teatro Aberto (o velhinho), com o João Perry? Não sei, perdi-lhes a conta. Mas lembro-me da peça, da impressão que me causou.

Muitos anos depois, o Beckett – “Enquanto se está à espera de Godot”. Há poucas peças de que me lembro com pormenor ao fim de alguns anos. Lembro-me do Mário Viegas e do Santos Manuel nos papéis principais, do chorrilho que o João Carracedo despejava seguidinho e a alta velocidade e da impressão que me fez ele vir pela trela com o Morais e Castro. Eu já conhecia a peça, já a tinha lido antes, e por isso mesmo, lembro-me de a ter desvendado naquela noite, de a ter finalmente percebido. É para isso que servem os encenadores, não é?

E lembro-me sobretudo de quanto me ri a vê-lo em palco ou a ouvi-lo.

Houve mais peças, mas sobretudo, houve muitas que não vi e que me fazem falta. Ainda hoje, quando me dá a preguiça e penso não ir a determinado espectáculo, é desta grande mentira que me lembro, de todas as peças do Mário Viegas que quis ter visto e que por preguiça…

Era um homem íntegro, sem concessões. Dizia sempre o que tinha a dizer e tal como tinha que ser dito, ponto final. Com ironia pontiaguda. Do piorio, portanto.

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