Cheguei 50 anos atrasada, eu sei, avô. Mas tu estavas lá, dobrado. Sozinho e doente. Sem entender os sinais que os outros trocavam entre si — e o maldito telefone tocava. Havia uns códigos que não conhecias e o telefone tocava outra vez. Era para ti? No escuro havia o alento possível e tu estavas sozinho. O maldito telefone tocava.

No escuro… não sabias, os passos aproximavam-se. Mas não. Pararam as botas no outro escuro ao lado. Pararam os sinais e a voz já não murmura. Não era para ti… desta vez.

E o telefone tocava.

No escuro, pensavas: “Sem o meu dinheiro do trabalho… o que é que elas comem as quatro? E a pequenita, tão linda?!” O maldito telefone…

Preferias que a avó não te visitasse. Era humilhada, insultada, aquela mulher tão linda revistada por mãos nojentas. Não, era melhor não. “E as meninas? O bebé que vai nascer?” Nasceu. É parecido contigo, tem os teus traços, os mesmos olhos.

O telefone ainda toca repetidamente, eu ouvi-o. Mas só sei como soa agora, com as portas abertas, as tábuas vazias e o sol a entrar. O som do telefone não é o mesmo com sol e liberdade. Quase parece só um telefone.

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