A escravatura foi abolida na lei. Há muito tempo. Agora é feio chamar-lhe escravatura. Mas vejamos. O escravo vivia em instalações fornecidas pelo seu dono e tinha a comida e as condições suficientes para continuar produtivo. Ir ao mercado (e ainda há um em Lagos, que vale a pena visitar, nem que seja para sentir como é um sítio onde eram vendidas pessoas) era caro e dava trabalho. Era habitualmente mais barato manter produtivos os escravos que já se tinha.

Agora os estágios gratuitos sucedem-se. A entidade patronal comanda toda a vida do estagiário, diz e desdiz as horas de entrada e saída a seu bel prazer e nem sequer tem que pagar alojamento, deslocação e alimentação. O estagiário (que é feio chamar escravo) tem que se arranjar para pagar isso tudo do seu bolso!

Um precário ganha qualquer coisa, mas também tem que pagar a segurança social e os seguros que forem obrigatórios, pelo que o alojamento e a comida (que para os escravos eram gratuitos) já lhe saem do bolso e não dos honorários. As condições de trabalho também são a bel prazer do patrão, as fúrias que se aturam, os horários, o medo do despedimento a cada minuto. Dizer que não são donos é mesmo só por cortesia (ou por medo de um processo por difamação — porque não se pode chamar as coisas pelos nomes, tem sempre que se usar o palavreado da moda).

Mas há ainda a escravatura a que é aceitável chamar escravatura. Os raptos para trabalho, capatazes que ficam com os documentos para as pessoas não poderem fugir (em fábricas, quintas, construção, trabalho sexual, as hipóteses são múltiplas). Há hoje (na segunda década do século XXI) um mercado (consta que ali para os lados da Praça de Espanha) onde todo os dias passam carrinhas para escolher trabalhadores para levar à jorna, como nos filmes sobre o século XIX. Fazêmo-lo aos africanos, europeus de leste e orientais, enquanto não páram de chegar relatos de portugueses raptados em quintas (Espanha, Irlanda, etc.), que levam meses a conseguir contactar as embaixadas portuguesas para pedir socorro.

A lei aboliu-a, mas na nossa vidinha está muito viva. Quem pode garantir com absoluta certeza que vive numa casa construída sem escravatura?

Em suma, os modelos actuais de precariado nem são bem escravatura. São muito mais lucrativos que isso!!!

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