You are currently browsing the tag archive for the ‘Política’ tag.

Dia 1 de Novembro numa aldeia ribatejana. Como habitualmente, está marcada uma romagem ao cemitério local a meio da tarde.

Mas, neste ano do Senhor, estando no poder local a união nacional desta república oficialmente católica, as orações são precedidas por um discurso do presidente da junta de freguesia. Vem apresentar-se à população, falar da junção de freguesias e da ampliação do cemitério (decisão e obra do efectivo anterior, mas isso não vem ali ao caso). Depois o sr. presidente passa a palavra ao sr. padre, que dirige a cerimónia religiosa. No fim, sendo evidente a presença de membros do efectivo anterior, o sr. presidente da junta volta a dirigir a palavra aos fiéis para assinalar, finalmente, que é o culminar de um trabalho da junta anterior.

E assim se dá por encerrada a cerimónia religiosa do 1 de Novembro numa freguesia socialista em 2013 e termina a minha visita a um estado confessional católico, coisa que eu nunca pensei vir a conhecer.

 

Anúncios

Este governo passou todo o mês de Agosto a legislar. Cidadãos de férias, jornalistas de férias, programas de análise política interrompidos… há lá melhor época para legislar contra a Constituição do que quando as pessoas pensam que aquilo é obra dos comediantes da silly season? Mas a dura realidade é que já não estamos a ver o que vão fazer. Estamos a ver o que fizeram!

Além do que já está visto e feito, podemos supor o que vão fazer para a frente, com base no que conhecemos. Não vamos ser ingénuos, como se não conhecessemos este governo! Sobreiros, Moderna, submarinos? Sempre que o PSD vai para o governo a polícia desata a matar gente e a malhar forte e feio em qualquer manifestação! Aliás, já foi dito e anunciado que iria ser assim, primeiro pelo Coelho e depois pelo Portas. Truques para fazer desaparecer défices… lembram-se da Ferreira Leite? Mesmo que não se lembrem, estamos a pagar o negócio do Citybank! Mais o BPN, que cada dia tem mais e maiores buracos e novidades. Não podemos supor com base no que não conhecemos, mas esta gente já cá anda há tempo suficiente e a maior parte dos cidadãos também.

Sabemos até mais. Sabemos que anunciaram em grande pompa que iam ser menos ministros para poupar. Esqueceram-se de anunciar em grande pompa que são muito mais secretarias de estado e assessores e que na realidade este governo é muito mais caro que os anteriores!

Sobre a saúde:

Escolheram cortar nos transplantes, na vacina do HPV, etc. Esqueçamos a questão humana, que isto não é um país, é um aviário para a engorda. Um doente transplantado vai para casa um mês e depois volta a ser franguinho produtivo. Um não-transplantado agoniza durante uma data de tempo no bem-bom do hospital à custa do contribuinte e depois ainda por cima morre e não volta a ser produtivo e a pagar impostos! Uns mal-agradecidos, é o que é!!!
Uma mulher saudável trabalha, produz filhos, produz assistência familiar, etc. Uma mulher que morre aos 40 com cancro (que é a idade média no caso do cancro do colo do útero provocado pelo HPV) custa internamento, custa quimioterapia, custa todos os anos que não trabalhou por não viver e pagar impostos até aos 70, custa uma cirurgia. Tudo isto pode evitar-se com 3 injecções que custam no total 500 euros. Já sabemos que em aviários não há dor, sofrimento nem dramas familiares ou questões humanas a considerar.

A medida afinal foi reconsiderada e está em nova avaliação. O governo atirou a moeda ao ar e quando viu que lhe ia cair em cima lançou o aviso sobre tumultos e disse que afinal era só uma proposta em avaliação (a parte das vacinas, não a dos transplantes).

Os medicamentos biológicos são basicamente a diferença entre um franguinho que continua a produzir em pleno como se não tivesse doença nenhuma e um franguinho indigente, em casa, ainda por cima a tomar anti-inflamatórios à custa do pobre contribuinte trabalhador. A viver à grande, portanto. Humanamente é a diferença entre uma pessoa que vive a sua vida normal e uma pessoa consumida pela dor, incapaz de trabalhar, de se mexer, de fazer muitas das coisas quotidianas. O medicamento é caro…? Quem assistiu à diferença real, vista, observada, na vida verdadeira, vivida, de uma pessoa que passa do anti-inflamatório (que na verdade não faz grande coisa) para o novo medicamento, sabe que o medicamento não é caro. Nada caro. É uma escolha desumana e cara — porque um franguinho que trabalha e paga impostos é melhor que o franguinho indigente à custa do contribuinte.

Cultura:

Sobre a Cultura, volta o mesmo processo. Saem umas bocas muito gerais e imprecisas sobre a OpArt e a Cinemateca, o suficiente para medir a reacção, mas ainda com espaço para dizer que é só uma proposta e tal. Parece-me, no entanto, que já sabemos o suficiente desta gente para perceber que para eles nada disso é para respeitar. Não me parece descabido que mandem simplesmente extinguir ou privatizar, para ser comprada por uma Lusomundo ou TVI, no caso da Cinemateca.

Os Nacionais S. Carlos, S. João e D. Maria II, a mesma coisa. Já vi em França a Comédie Française privatizada. Os actores fazem 3 peças por dia, às vezes em papéis diferentes, mais ensaios para a estreia seguinte. Passaram a ser escolhidos por fotografia, não pela qualidade. É um regalo para os olhos ver aquele palco e há meninos e meninas para todos os gostos (o bonitinho, o machão, o charmoso; a loura, a morena e a ruiva)! São todos uns giraços e umas giraças, mas nada daquilo tem a ver com Molière, Corneille ou Beaumarchais! Quero com isto dizer que a privatização não é nada impensável…

Impensável?

Impensável era obrigar os agricultores a deitar as culturas fora, limitar a produção de leite dos Açores ou pôr quotas nas pescas e isso já foi há 20 anos! Impensável era democratizar o ensino superior e vermo-nos sem médicos a seguir — e o numerus clausus já lá vai e nós estamos mesmo sem médicos!
Impensável era toda esta novela do BPN, as voltas que deu sem sair do bairro da Coelha, mais a eleição e reeleição do permissivo e mui ciente do processo Cavaco Silva para a presidência. Impensável era estar toda esta gente a viver da escravatura em Angola em 2011. Eppur…

Impostos:

Quanto ao mito da boa gestão, podiam ter escolhido aumentar o IRS nos escalões mais altos e acrescentar um escalão de IRC para maiores lucros, em vez disso aumentaram o IVA para níveis impensáveis em qualquer outro país. Como o consumo diminui a subida do IVA não vai dar para nada. Até em termos de tesouraria estas decisões são um fiasco!

Podiam escolher criar postos de trabalho no combate à fraude e à evasão fiscal (para trazer receitas) — 2 em um!!! — mas escolheram não o fazer.

E concluímos, as trevas:

Repete-se à exaustão que as empresas lucrativas investem e criam emprego. Mas então onde está o investimento e consequente criação de emprego dos lucros crescentes dos últimos anos nos bancos, na TAP, Jerónimo Martins, SONAE, etc.? É a crença num mito. Estarão os nossos netos e bisnetos a chamar a esta época a segunda idade das trevas e do obscurantismo, em que as pessoas vivem na crença cega de um deus mercado que um dia há-de funcionar. Não há qualquer racionalidade ou explicação aparente para que se viva assim e no entanto a obediência inquestionável prossegue quase sem tropeções.

Em seguida voltamos à fita do inevitável e das dívidas que são para pagar. É mesmo conversa da treta para fazer chantagem e manter a tal obediência cega e obscurantista, não passa disso. Quem lê mais relatórios da ONU, mais Krugman e outros prémios Nobel da economia e menos comentadores partidários (o Pacheco Pereira, o Sousa Tavares, o Rebelo de Sousa…) tem plena consciência disso. Acontece que os relatórios da ONU e os prémios Nobel não dão na tv mesmo antes da novela.

A ONU e os Nobel, embora com pequenas diferenças, concordam nas mais básicas evidências: a dívida externa não é pior do que a que existe em muitos outros países, sobretudo a dívida pública; não sabemos que parcelas compõem o total da dívida pública, porque não houve nunca uma auditoria efectivamente esclarecedora; não sabemos sob que condições foi contraída a dívida, ou cada uma das suas partes e em nome de quê, nem onde está de facto esse dinheiro; o problema é que os bancos alemães têm dinheiro investido nas nossas dívidas (portuguesa, grega, irlandesa) e querem lucros gigantescos (esses sim, insustentáveis a valer) para ontem; salários e segurança no trabalho promovem o consumo e garantem a economia a longo prazo de forma sustentável.
Não a economia do milionário, mas a economia do Sr. Zé da mercearia, mais o Sr. António do café do bairro, que por sua vez vai à frutaria da D. Etelvina e leva os filhos no verão à praia e a jantar ao restaurante… Se cada um de nós puder tomar um café por dia no bairro, se cada um de nós puder comprar um CD ou um livro uma vez por mês, esses negócios mantêm-se. Um milionário, por mais que tenha, não janta 30 vezes por dia nem muda de roupa uma vez por hora — vai deixar o dinheiro num offshore, não consegue consumir tudo! Mas o mesmo dinheiro dado a 30 famílias diferentes dá 120 jantares naquele dia e eventualmente uma muda de roupa nova por estação por pessoa e umas idas ao teatro, a concertos e ao cinema!
E por falar em offshore: pode taxar-se o dinheiro à saída quando vai ser transferido para um offshore. Também é uma escolha não o fazer.

Mais, diz-se (é outra das inevitabilidades) que os administradores públicos têm que ser pagos assim, senão vão-se embora. Segredo: se fossem realmente melhor pagos lá fora e se alguém os quisesse, já tinham ido. Os nossos administradores ganham mais do que na maior parte dos países europeus. Não haverá por aí alguém competente e que se contente com um bom salário (e por bom salário estou a considerar algo que dê para grande vivenda, piscina e bom Mercedes novo de 6 em 6 meses — não é nenhuma miséria)?

Diz-se que se aumentarmos os custos (laborais e fiscais) para as empresas elas vão-se embora. Ó senhores… O Soares dos Santos (Jerónimo Martins, Pingo Doce) vai-se embora assim… e deixa um mercado de 10 milhões de habitantes a quem quiser ocupá-lo?! Mas já alguém parou para pensar (ou rir às gargalhadas de tal invenção)?

O Belmiro (ou mais recentemente o filho) deixa os netos e a família toda se o salário mínimo subir para os 500 euros? Essa gente também tem raízes e família, não vão embora por causa de uns trocos. E 500 euros seria ainda assim muito baixo comparativamente ao resto da Europa! Para compensar teria que emigrar para fora da Europa, o que não é muito plausível…

E se o Continente for à falência por causa dos 500 euros ou por causa de um IRC mais alto ou ainda se de repente a lei laboral tivesse que ser absolutamente cumprida? Um negócio de supermercado, que vende comida e bens básicos, só vai à falência por má gestão ou fraude. Se for realmente à falência, sendo um negócio seguro e lucrativo, será prontamente substituído por outro que saiba gerir com decência. O Belmiro lá ficava sem a fortuna, mas é tudo. Em termos nacionais (do ponto de vista dos clientes, dos trabalhadores e do fisco) ficaríamos bem melhor!

(publicado também no Portugal Uncut)

da Gui Castro Felga

Somos cidadãos e cidadãs nascidos depois do 25 de Abril de 1974. Crescemos com a consciência de que as conquistas democráticas e os mais básicos direitos de cidadania são filhos directos desse momento histórico. Soubemos resistir ao derrotismo cínico, mesmo quando os factos pareciam querer lutar contra nós: quando o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusava uma pensão ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, e a concedia a torturadores da PIDE/DGS; quando um governo decidia comemorar Abril como uma «evolução», colocando o «r» no caixote de lixo da História; quando víamos figuras políticas e militares tomar a revolução do 25 de Abril como um património seu. Soubemos permanecer alinhados com a sabedoria da esperança, porque sem ela a democracia não tem alma nem futuro.

O momento crítico que o país atravessa tem vindo a ser aproveitado para promover uma erosão preocupante da herança material e simbólica construída em torno do 25 de Abril. Não o afirmamos por saudosismo bacoco ou por populismo de circunstância. Se não é de agora o ataque a algumas conquistas que fizeram de nós um país mais justo, mais livre e menos desigual, a ofensiva que se prepara – com a
cobertura do Fundo Monetário Internacional e a acção diligente do «grande centro» ideológico – pode
significar um retrocesso sério, inédito e porventura irreversível. Entendemos, por isso, que é altura de erguermos a nossa voz. Amanhã pode ser tarde.

O primeiro eixo dessa ofensiva ocorre no campo do trabalho. A regressão dos direitos laborais tem caminhado a par com uma crescente precarização que invade todos os planos da vida: o emprego e o rendimento são incertos, tal como incerto se torna o local onde se reside, a possibilidade de constituir família, o futuro profissional. Como o sabem todos aqueles e aquelas que experienciam esta situação, a precariedade não rima com liberdade. Esta só existe se estiverem garantidas perspectivas mínimas de segurança laboral, um rendimento adequado, habitação condigna e a possibilidade de se acederem a dispositivos culturais e educativos. O desemprego, os falsos recibos verdes, o uso continuado e abusivo de contratos a prazo e as empresas de trabalho temporário são hoje as faces deste tempo em que o trabalho sem direitos se tornou a norma. Recentes declarações de agentes políticos e económicos já mostraram que a redução dos direitos e a retracção salarial é a rota pretendida. Em sentido inverso, estamos dispostos a lutar por um novo pacto social que trave este regresso a vínculos laborais típicos do século XIX.

O segundo eixo dessa ofensiva centra-se no enfraquecimento e desmantelamento do Estado social. A saúde e a educação são as duas grandes fatias do bolo público que o apetite privado busca capturar e algum caminho, ainda que na penumbra, tem sido trilhado. Sabemos que não há igualdade de oportunidades sem uma rede pública estruturada e acessível de saúde e educação, e estamos convencidos de que não há democracia sem igualdade de oportunidades. Preocupa-nos, por isso, o desinvestimento no SNS, a inexistência de uma rede de creches acessível, os problemas que enfrenta a escola pública e as desistências de frequência do ensino superior por motivos económicos. Num país com fortes bolsas de pobreza e com endémicas desigualdades, corroer direitos sociais constitucionalmente consagrados é perverter a nossa coluna vertebral democrática, e o caldo perfeito para o populismo xenófobo. Com isso, não podemos pactuar. No nosso ponto de vista, esta é a linha de fronteira que separa uma sociedade preocupada com o equilíbrio e a justiça e uma sociedade baseada numa diferença substantiva entre as elites e a restante população.

Por fim, o terceiro e mais inquietante eixo desta ofensiva anti-Abril assenta na imposição de uma ideia de inevitabilidade que transforma a política mais numa ratificação de escolhas já feitas do que numa disputa real em torno de projectos diferenciados. Este discurso ganhou terreno nos últimos tempos, acentuou-se bastante nas últimas semanas e tenderá a piorar com a transformação do país num protectorado do FMI. Um novo vocabulário instala-se, transformando em «credores» aqueles que lucram com a dívida, em «resgate financeiro» a imposição ainda mais acentuada de políticas de austeridade e em «consenso alargado» a vontade de ditar a priori as soluções governativas. Esta maquilhagem da língua ocupa de tal
forma o terreno mediático que a própria capacidade de pensar e enunciar alternativas se encontra ofuscada.
Por isso dizemos: queremos contribuir para melhorar o país, mas recusamos ser parte de uma engrenagem de destruição de direitos e de erosão da esperança. Se nos roubarem Abril, dar-vos-emos Maio!

Subscrevem:

Alexandre de Sousa Carvalho — Relações Internacionais, investigador
Alexandre Isaac — Antropólogo, dirigente associativo
Alfredo Campos — Sociólogo, bolseiro de investigação
Ana Fernandes Ngom — Animadora sociocultural
André Avelãs — Artista
André Rosado Janeco — Bolseiro de doutoramento
António Cambreiro — Estudante
Artur Moniz Carreiro — Desempregado
Bruno Cabral — Realizador
Bruno Rocha — Administrativo
Bruno Sena Martins — Antropólogo
Carla Silva — Médica, sindicalista
Catarina F. Rocha — Estudante
Catarina Fernandes — Animadora sociocultural, estagiária
Catarina Guerreiro — Estudante
Catarina Lobo — Estudante
Celina da Piedade — Música
Chullage — Sociólogo, músico
Cláudia Diogo — Livreira
Cláudia Fernandes — Desempregada
Cristina Andrade — Psicóloga
Daniel Sousa — Guitarrista, professor
Duarte Nuno — Analista de sistemas
Ester Cortegano — Tradutora
Fernando Ramalho — Músico
Francisca Bagulho — Produtora cultural
Francisco Costa — Linguista
Gui Castro Felga — Arquitecta
Helena Romão — Música, musicóloga
Joana Albuquerque — Estudante
Joana Ferreira — Lojista
João Labrincha — Relações Internacionais, desempregado
Joana Manuel — Actriz
João Pacheco — Jornalista
João Ricardo Vasconcelos – Politólogo, gestor de projectos, blogger
João Rodrigues — Economista
José Luís Peixoto — Escritor
José Neves — Historiador, professor universitário
José Reis Santos — Historiador
Lídia Fernandes — Desempregada
Lúcia Marques — Curadora, crítica de arte
Luís Bernardo — Estudante de doutoramento
Maria Veloso — Técnica administrativa
Mariana Avelãs — Tradutora
Mariana Canotilho — Assistente universitária
Mariana Vieira — Estudante de doutoramento
Marta Lança — Jornalista, editora
Marta Rebelo — Jurista, assistente universitária
Miguel Cardina — Historiador
Miguel Simplício David — Engenheiro civil
Nuno Duarte (Jel) — Artista
Nuno Leal — Estudante
Nuno Teles — Economista
Paula Carvalho — Aprendiz de costureira
Paula Gil — Relações Internacionais, estagiária
Pedro Miguel Santos — Jornalista
Ricardo Araújo Pereira — Humorista
Ricardo Lopes Lindim Ramo — Engenheiro civil
Ricardo Noronha — Historiador
Ricardo Sequeiros Coelho — Bolseiro de investigação
Rita Correia — Artesã
Rita Silva — Animadora
Salomé Coelho — Investigadora em Estudos Feministas, dirigente associativa
Sara Figueiredo Costa — Jornalista
Sara Vidal — Música
Sérgio Castro — Informático
Sérgio Pereira — Militar
Tiago Augusto Baptista — Médico, sindicalista
Tiago Brandão Rodrigues — Bioquímico
Tiago Gillot — Engenheiro agrónomo, encarregado de armazém
Tiago Ivo Cruz — Programador cultural
Tiago Mota Saraiva — Arquitecto
Tiago Ribeiro — Sociólogo
Úrsula Martins — Estudante


O INE revelou há poucos dias o número de 11% como correspondendo ao nível de desemprego do quarto trimestre de 2010. Mas este número é calculado por amostragem. Por outro lado, põe fora da designação de desempregado qualquer pessoa que tenha trabalhado pelo menos uma hora na última semana. O número real do desemprego será portanto muito superior.
O actual sistema económico comandado pelo capital financeiro e pela especulação criou e banalizou modelos de subemprego que servem para degradar e desvalorizar o trabalho, fugir a impostos, engordar lucros de forma imoral (e irracional) e subjugar os trabalhadores. Como precários, largos milhares de trabalhadores não têm forma de questionar as condições impostas. Como precários, estão fora da legislação laboral, que estabelece direitos duramente adquiridos a que agora se chamam muito convenientemente “privilégios.”
Não há uma geração com direitos e outra sem direitos. Essa é a narrativa conveniente da direita dos interesses que quer liquidar os direitos de todos e de todas as gerações, em nome de uma competitividade desumana e da invasão de toda a vida humana pelos sacrossantos mercados e pelo lucro a qualquer preço.
A precariedade atinge todos os trabalhadores, com e sem formação académica, de todas as profissões e estratos sociais e não discrimina gerações. Atinge os mais velhos que, tendo perdido o emprego, não conseguem voltar a encontrar estabilidade no mercado de trabalho, e atinge todas as gerações com menos de 45 anos, que nunca tiveram um emprego estável. Atinge os seus pais, que na reforma deixam de poder contar com a ajuda dos filhos, miseravelmente pagos. Atinge as crianças, que vivem em famílias onde o dia começa com emprego, mas nunca se sabe como acaba. Atinge todos os que têm contrato permanente, porque também sofrem a pressão para a desvalorização dos salários e do seu trabalho.
Atinge ainda todos os que estão nos quadros dos seus locais de trabalho, uma vez que os seus postos de trabalho seriam muito mais baratos se preenchidos por um precário ou estagiário. Esses trabalhadores tornam-se também precários, uma vez que o primeiro pretexto — uma recusa de fazer horas extraordinárias, uma doença, um erro apenas — será a oportunidade para tentar despedi-los, substituindo-os.
As próprias empresas teriam a ganhar com trabalhadores empenhados e conhecedores da empresa e do seu meio e interessados no seu desenvolvimento e sucesso; trabalhadores cuja preocupação maior não é o futuro no fim do estágio ou como sobreviver com quinhentos euros ou menos. A qualidade dos serviços piora drasticamente com a rotatividade permanente de precários e estagiários. As empresas tornam-se precárias, vítimas de uma irracionalidade financeira de muito curto prazo para distribuição de lucros aos accionistas.
Diz-se também que, com a desculpa da crise, não há emprego. Mas se quase todos lá vamos arranjando uns meios-tempos aqui ou ali, coisas temporárias, estágios, recibos verdes e quejandos, há trabalho. Mas o que este sistema predador orientado exclusivamente para o lucro não quer é trabalho valorizado e com direitos, ou seja, empregos! O que não há é respeito pelo trabalho.
Assim, PRECÁRIOS SOMOS TODOS!

No dia 12 de Março, VAMOS EXIGIR RESPEITO PELO NOSSO DIREITO AO FUTURO E TRABALHO COM DIREITOS! Vamos dizer que EXIGIMOS RESPEITO pelo trabalho que já fazemos!

Tanta converseta à volta da “geração parva”, “geração rasca”, gentalha que enche a boca com adjectivos sem saber o que dizem… Não ponho ligações, porque seriam muitas. Uma das coisas que mais se diz é que esta geração se diz enganada pelo sistema porque um curso não é garantia de emprego. De facto não é, mas a questão não é essa.

A questão é que os empregos estão aí, existem. Não falta a de procura de precários a 500 euros (com exigência de cursos superiores), estagiários não remunerados, etc. Ou seja, trabalho para licenciados e pós-graduados — postos de trabalho, coisas para fazer — não falta. Há quem procure gente jovem com muita iniciativa, quem procure gente experiente que consiga ter mais autonomia. Só não querem pagar. Pequenino detalhe.

Se há 2 milhões de precários, há 2 milhões de postos de trabalho.
Só falta a decência, o trabalho já existe.

Aviso à navegação: Vou ser politicamente incorrecta, muito.

 

Acabadas as campanhas e as discussões em torno dos candidatos, vamos ao outro lado da moeda: os eleitores.

Os não-candidatos não se candidatam por diversas razões, uma das quais será, muito provavelmente, a consciência dos eleitores que têm que enfrentar. Os candidatos, esses, são escolhidos pelos eleitores.

Os momentos inserem-se na História, têm uma origem, um desenvolvimento, um resultado, que por sua vez é já a origem e o desenvolvimento de outros resultados quaisquer no futuro.

Este povo que votou nestas eleições é o povo que votou nas anteriores e é até o mesmo povo que impavida e serenamente não votou durante 48 anos.

Sejamos honestos, mais de 90% da nossa população é apática e analfabeta funcional e politicamente. Há talvez um milhão de pessoas que tomam iniciativas políticas (partidárias ou não), que reflectem, pensam e agem na política com consciência do que fazem. Repare-se que mesmo os que aparentemente têm actividade política, sobretudo partidária, não se incluem necessariamente neste grupo de gente que pensa, reflecte e não é nem apática nem politicamente analfabeta.

Falo de um povo que se submeteu a 48 anos de ditadura sem pestanejar — com honrosas excepções. Que mais aguentaria (100, 500, 1000 anos?) se não fosse o bravo punhado de homens do MFA que lhe entregou a Democracia para as mãos — no raro (será único?) caso em que um golpe militar se fez para instaurar a Democracia e não aboli-la e que o fez sem mortos. No dia saiu muita gente para a rua, festejaram; durante algum tempo houve associações de moradores, cooperativas, comissões de trabalhadores, movimentos de todos os tipos, sindicalizações em massa, etc.

Mas a esquerda, que não consegue pôr-se de acordo sobre nada, começou em lutas internas. O PCP decidiu que o pior inimigo do Povo era de repente o mesmo homem que tinha sido um dos líderes do MFA e não descansou enquanto não meteu o Otelo na prisão. O MRPP e o PCP, com outros vários pequenos partidos à mistura, andaram a queimar as sedes uns dos outros e a fazer atentados uns contra os outros.

No entretanto, a direita passeou-se de charuto na mão, o MDLP e o HELP fizeram o que quiseram, mataram quem lhes apeteceu, ninguém se importou, a esquerda estava demasiado ocupada a combater “os verdadeiros inimigos do Povo”. E a seguir a Outubro chega inexoravelmente Novembro e impôs a “normalidade”.

 

O Povo? Foi na corrente, amochou e continuou a vidinha de sempre, a tal “normalidade”. As comissões, associações, cooperativas desapareceram. No fim dos anos 80 já não havia quaisquer sinais do PREC — com as honrosas excepções que confirmam a regra. A Comunicação Social divulga a opinião de que a esquerda é perigosa e de que Otelo é o tal criminoso que estava muito bem preso: o Povo serenamente não questionou e ainda não questiona. Do MDLP e do HELP a grande maioria da população nem ouviu falar, e no entanto os assassinados permanecem mortos e esses crimes por julgar!

 

Durante décadas vimos desaparecer a nossa frota pesqueira, a nossa agricultura, a nossa indústria, o sistema de saúde, o sistema judicial, os nossos direitos mais básicos; vimos os fundos da CEE a irem directamente para os bolsos dos donos das empresas subsidiadas sem investimento na formação ou capacidade produtiva. Houve manifestações, mas o que se ouvia é que era perigoso ir a essas manifestações, que a polícia batia. Batia pois, e a do Cavaco mais que todas as outras juntas! Mas batia, porque na realidade as manifestações eram sempre pequenas relativamente à população e porque quem não estava na manifestação estava apático e não queria saber dessas “coisas” para nada. “Se levavam bastonadas, não se pusessem a jeito”.

 

Acharam que o facto de poderem votar já era muito bom, não sabem bem em quem, porque continuam tão analfabetos e apáticos como dantes. Até vão, mais ou menos, às urnas, mas obedecem sempre a quem lhes parece ter mais ascendente de paizinho como o Salazar. Votam sempre igual: de Cavaco a Sócrates, de Santana Lopes a Durão Barroso e Paulo Portas não há diferenças substanciais. Até há outros candidatos, mas esses não são o paizinho. Para votar diferente era preciso pensar, saber, reflectir em consequências, em longos prazos, conseguir destrinçar o que são acusações verdadeiras e o que são acusações de campanha, promessas a cumprir e promessas de campanha. Sobretudo, é preciso tomar as rédeas e assumir responsabilidade. É mais fácil deixar para o paizinho e ser obediente.

 

O analfabeto agora tem curso superior, mas o surf e e as discotecas são bem mais giros que essas coisas da política. Os novos padres são os DJs e as catedrais têm subwoofers de alta potência. O futebol, esse, é o mesmo, nem precisou de mudar. “Eles são todos iguais” é fácil e poupa o trabalho do raciocínio. É o equivalente moderno do “não digas essas coisas, que isso não é para tua cabeça, os senhores doutores tratam dessas coisas da política”. O fraseado é outro, mas o raciocínio é o mesmo. Já não se vai preso por falar em política, mas isso não faz qualquer diferença para os 90%. Desde que haja novelas, futebol e centros comerciais ao domingo, Big Brother, Ídolos e cinema de mau gosto, está tudo bem. E a “normalidade”: estão presos na ignorância, mas estes presos não sabem que o estão.

 

 

Os politicamente activos, sejamos sinceros: conhecemo-nos todos. Somos muito poucos. Sempre os mesmos e sempre os mesmos há muitas gerações: somos os filhos e os netos dos presos da PIDE e do Tarrafal, dos exilados ou simplesmente de quem lia umas coisas que vinham em papel de embrulho por debaixo do balcão. Somos nós e os nossos pais e avós, educamos os filhos para ler duas vezes — uma nas linhas e outra nas entrelinhas — como nos ensinaram a nós. Ensinamos-lhes, como nos ensinaram a nós, que se não fizermos a mudança, ela não acontece. Neste momento, nesta realidade, com estes 90% de analfabetos não é possível a Revolução, porque a Revolução é feita pelo Povo por definição e este Povo nem sequer sabe o que quer dizer essa palavra.

 

 

Entretanto hoje:

Saiba-se o que se souber sobre Cavaco, a aura de honesto — que nunca foi provada, é apenas uma campanha de marketing bem sucedida — não se descola da cabeça das pessoas. E o analfabeto apático volta a votar no Cavaco porque sim. Porque acredita. Como acreditava em Deus e denunciava “bruxas” à Inquisição sem pensar, obedientemente.

Como acredita, piamente, fervorosamente que o nosso senhor de Wall Street ainda um dia há-de fazer justiça. Acredita, não porque tenha visto, mas porque sim, porque lhe disseram uns senhores de gravata, com ar austero e de paizinho rígido: podem chamar-lhe Salazar, Antigo Testamento, Cavaco ou “Mercados” — quem se porta mal, leva. E o Povo, apático e analfabeto, não sabe que, como disse Saramago em 2003, a “opinião pública é a segunda grande potência mundial”. Mas, acrescento eu, até podia ser a primeira grande super-potência mundial, se quisesse, se um dia quisesse.

 

(Nota tragi-cómica: no dia em que estou a escrever — e não vou publicar hoje — é sexta-feira, horas antes do fim da campanha. Cavaco acabou de inventar a solução para todos os problemas nacionais: o Imposto Sobre as Grandes Fortunas!!! Será   que o Prof. Dr. Economista levou 71 anos a chegar a esta conclusão??? Brilhante!!! Além da ironia de também hoje ter sido divulgada a sua fuga à SISA, ele faz um ar messiânico, como se a esquerda não defendesse esse mesmo imposto há décadas, sempre rejeitado por ele — no governo, como líder do PSD, como ideólogo e economista do PSD! Esse imposto, que o “insigne economista” agora “inventa”, foi proposto na AR. Porque não se declarou favorável quando o seu partido podia ter aprovado esta lei? A diferença é que a esquerda já defende este imposto e apresentou as respectivas propostas na AR, continuará a defender e tentar fazer aprovar o mesmo nas próximas legislaturas e o candidato Cavaco lembrou-se em desespero de último minuto na sexta-feira à tarde, esquecendo-se disso assim que terminem as eleições.)

A Europa continua a extremar a sua direita, a diferença na Suíça é que não têm pudor nisso. Há pouco mais de um ano tempo referendaram se deviam ou não proibir os minaretes nas mesquitas. O próprio referendo já foi um ataque inaceitável à liberdade religiosa. Mas nesse dia aconteceu algo inconcebível: a proposta foi aceite em referendo. Inconcebível numa Europa ainda a lidar com as consequências directas da II Guerra Mundial, onde a Suíça não teve qualquer papel (mas lá que eu não queria ser suíça, não queria — bastam-me bem as insónias que tenho mesmo não sendo do Eixo! Ai, que isto não se pode dizer assumidamente, lá se me escapou o parêntesis…).

A quantidade de grandes refilanços, que sou uma exagerada, que os suíços são boa gente, bem intencionada, aquele discurso habitual do “lá fora são todos mais inteligentes que nós”… enfim. Bom, a realidade e o tempo são implacáveis. É uma chatice!

Eis que agora aprovaram a extradição de condenados, de quem não se insira no sistema. Claro que as nossas cabecinhas racistas pensaram imediatamente nos muçulmanos e não nos importámos nada. É natural que os bons suíços sempre tão neutrais queiram viver em paz sem terem que aturar criminosos muçulmanos.

Newsflash: têm noção da quantidade de portugueses que vive na Suíça? E descendentes que têm nacionalidade portuguesa — e que são portanto expulsáveis — mas que não têm qualquer ligação a Portugal? Serão todos absolutamente santinhos, não há criminosos portugueses? Alguém ligou o Onofre (o botão de on e off, como diz o JMB) para pensar nem que seja um cagagésimo de segundo?

Ou seja, isto vai cair-nos no colo! Vamos mesmo ter que integrar gente que a sociedade suíça educou (mal, pelos vistos) e que agora despeja aqui para resolvermos — sem família próxima, sem relações afectivas, sem redes solidárias nem apoios, muitas vezes sem saber a língua. O Canadá e os EUA sempre fizeram isto com açoreanos e nunca tiveram bons resultados. Eles não fazem inserção social de prevenção junto dos jovens, antes de se tornarem criminosos e cá o mexilhão que gaste o dinheiro a recuperá-los já depois de condenados!

Trata-se de uma pena dupla que resulta não do crime, mas do facto de serem imigrantes ou descendentes. Apenas a primeira pena — prisão, multa, o que seja — resulta do crime cometido.

 

Isoladas num país estrangeiro, o objectivo dessas pessoas, em vez de ser reconstruir a vida e integrar-se no seu país, que o único que conhecem e com que se relacionam, onde têm família e redes de solidariedade, passa a ser voltar e rever a família a qualquer custo, sobretudo quando têm filhos — e quem é que pode censurar isso?

(Nota prévia: Foi com a leitura da Visão da semana passada que me decidi a finalmente falar deste assunto. Não vou mencionar nomes — eles até sabem bem quem são — nem falar de todas as outras ilegalidades daquele “local de trabalho”. Isso não era um artigo, seria uma tese!)

 

Já fui vítima de Assédio moral no trabalho. De entre os vários factores apontados como assédio, os seguintes passavam-se comigo (e com alguns dos meus colegas):

É-lhe vedado o acesso a informação necessária ao seu desempenho profissional? SIM, era. Sobretudo a informação que estava fora do escritório, porque se não estivesse presente no escritório não podiam vigiar o cumprimento do horário. Se o trabalho aparecia feito no fim do dia ou não, pouco importava. O horário, a vigilância e o horário.

São espalhados rumores ou mexericos sobre si? Descobri recentemente que sim, também eram espalhados mexericos sobre mim, que de tão ridículos e inacreditáveis só provocavam risota, embora ainda hoje o colectivo patronal ainda acreditar neles. Desta parte até eu me rio! Desculpa lá, rapaz, mas eu nunca poderia estar apaixonada por ti!!!

Gritam consigo ou é alvo de comportamentos coléricos ou de raiva? Ora, aqui residia a grande questão. Esta era (e ainda é com alguns dos empregados que estão no mesmo local) a forma de comunicação habitual. Era o dia-a-dia, por razões tão fantásticas como perder 10 segundos a dizer “Bom dia” aos colegas. Sim, leram bem, grande ataque colérico por ter cumprimentado os meus colegas um dia de manhã. Com mail colérico a seguir. Este foi só um dos dias de trabalho igual a tantos outros.

É alvo de piadas ou brincadeiras de mau gosto? Era.

É socialmente ignorado pelos colegas, excluído das actividades de trabalho em grupo ou emprateleirado? Sim, era, mas não pelos colegas. Era excluída de algumas actividades e “emprateleirada”  pelo colectivo patronal.

 

Mais perguntas houvesse, mais historietas viriam ao de cima.

— O artº 20.º do Código de Trabalho interdita  a utilização de quaisquer meios tecnológicos para a vigilância dos trabalhadores à distância, mas a Inspecção Geral do Trabalho nunca apareceu para explicar isso ao colectivo patronal e essa era prática diária. O trabalho efectuado não importava, mas a quantidade de tempo que o écran estava em standby era medido ao segundo.

— O mesmo Código estabelece que a entidade patronal tem que criar condições para proteger a saúde dos trabalhadores. Quando substituíram alguns equipamentos de aquecimento por outros muito pouco saudáveis, fiz esse reparo a um dos patrões, que respondeu “Eu sei [que fazem mal], mas ficam.”

— a obsessão doentia com os ficheiros de picar o ponto (ilegais por si só na situação laboral em questão), com o cumprimento escrupuloso do horário de trabalho [que primeiro não havia, depois passou a haver e que ia mudando constantemente, nem sempre com o meu conhecimento], sem qualquer consulta aos relatórios de actividade, onde estava relatada a actividade propriamente dita, o conteúdo do trabalho realizado e os objectivos atingidos; isso não era importante, o essencial era o horário, o horário, o horário. Ah, e… o horário. Ao berro!

— as situações ridículas de grandes ataques coléricos por não ter feito a tarefa x da forma que me tinham dito e que eu só depois de se acalmarem conseguia explicar que daquela forma teria sido impossível e que tinha encontrado uma forma mais eficiente de a fazer. Os ataques coléricos, os berros, as gritarias, nesses casos, acabavam em silêncios embaraçosos. Pedidos de desculpas? Nem um.

 

O artigo da Visão fala de casos mais graves e de duração muito mais longa. Há gente que se suicida. Eu nunca pensei nisso, mas tremia de medo à sexta-feira à noite, por pensar que só faltavam 2 dias para ter que voltar. Ansiedade, insónias, medo, etc. Ainda tremo só por estar a reviver essa altura para escrever este artigo. Àquele sítio chamo-lhe “sanzala”, porque não são os míseros trocos que tornam a escravatura menos escravatura.

Quando aquilo acabou pensei que era o fim, mas não podia estar mais enganada. Ainda hoje me espanto com pequenas coisas quando me tratam como “gente normal” e percebo o quanto foi grave o que se passou.

Essa relação criminosa e doentia veio a influenciar as relações patronais posteriores com pessoas que nada têm a ver com este comportamento. Deixa marcas profundas. É difícil ainda hoje raciocinar claramente e não ter medo que o patrão desate de repente aos berros sem razão, apesar de no meu actual emprego (e nos outros que tive entretanto depois daquele específico) nada disso ter alguma vez acontecido. Cada vez que há uma situação de mais stress, quando estou em desacordo,;no fundo, quando a vida diária de qualquer organização acontece, o meu primeiro instinto é reagir como se ainda estivesse naquele sítio e o patrão ainda fosse o mesmo. Lentamente o raciocínio vai reagindo cada vez mais rapidamente: este primeiro instinto já não dura mais que uns segundos, mas também já passaram alguns anos.

Hoje, com os antigos colegas da “sanzala” que se tornaram amigos, tentamos rir da situação, do ridículo.daquela gentinha de faces alteradas, vermelhos de raiva pelas coisas mais estúpidas. Mas a verdade é que a ansiedade não é pouca nem é fácil de curar. A Visão chama-lhe Histórias de terror e são: a palavra não é nem um bocadinho exagerada.

Pessoal… e Transmissível – TSF.

Rafael Marques, nome que eu desconhecia até hoje (mea culpa), é um jornalista angolano e activista dos direitos humanos. Dedica-se à investigação da corrupção em Angola e falou hoje na entrevista com o Carlos Vaz Marques; falou e disse. Tudo!
Nós vamos ouvindo falar da Sonangol, da filha do presidente angolano, assim por alto. Sabemos do envolvimento do BES — mas o BES com o currículo que tem, não surpreende ninguém, é um grupo versátil em todo o tipo de barbaridades —, mas não sabemos da profundidade do envolvimento dos nossos eleitos todos, ao longo dos anos. Não se limitam ao deixar andar ou à ausência de denúncia, há uma ajuda activa e colaboração na situação existente.

Ora, o Rafael Marques não consegue entrar em Portugal pela via normal, ou seja, dirigindo-se à embaixada portuguesa em Luanda e cumprindo os trâmites normais para obter o visto. Não. Tem que ir a outra embaixada do espaço Schengen e entrar em Portugal através da UE (bom, para alguma coisa esta porcaria de união financeira havia de servir!!!). Diz que nunca foi incomodado em Portugal (era só o que faltava!), mas não lhe dão o visto, porque denuncia a corrupção em Angola e o estado português tem que ser bem-mandado. Afinal o estado português não é o cão de fila obediente da Europa, é uma puta que abana a cauda a qualquer um que lhe acene com um maço de notas!

O blog dele aqui fica — Maka Angola — para seguir atentamente. Enquanto ele continuar a publicar, significa que o José Eduardo dos Santos ou qualquer outro empresário ainda não o assassinaram.

Para mim, portuguesa, é uma vergonha ter este estado, estes representantes, este país, que participa activamente na miséria do povo de um dos países mais ricos do Mundo!

Cavaco diz que não faz cartaz, o que a malta até agradece. A ideia de ter que lhe ver a cara a cada dez metros sempre que se sai à rua é suficiente para me dar pesadelos. E isto sem me lembrar de que há uma real possibilidade de ele ser reeleito! Sobre os problemas psíquicos de um povo que reelege este tipo — e todos os que podem votar já estavam vivos nos anos 90 e o trabalho deste PM não foi propriamente no séc. XII! — a única coisa que tenho a dizer é: ainda bem que não sou psiquiatra para não ter que estudar tamanho estado de loucura!

Quanto às razões para não fazer cartazes, além da demagogia dos custos, parece que estão claras aqui ao lado. Cavaco não tem fotografias normais, sem embaraços. O menor dos males seria fazer os cartazes com as imagens do bolo-rei: essa é só ridícula.

As restantes fotografias estão provavelmente num arquivo de um tribunal como prova dos mais diversos casos badalados cá do burgo. Como esta, por exemplo…

Auditoria

Que se lixe a troika