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Tenho a mania que não vou escrever, mas “vai daí” começo a ler os blogs dos outros e as minhas respostas acabam por se tornar gigantescas…

Desta vez fui responder ao António Avelãs e dei por mim com o raciocínio todo feito. Por isso, ficou lá no Circo Lusitano e agora fica também aqui. A questão são os protestos generalizados em França e as greves e manifestações que se têm verificado. Eu não sou muito optimista neste aspecto… Segue a resposta que deixei no Circo Lusitano.

 

“Caro António,

Lamento, mas venho desiludi-lo. Os franceses ganharam a luta do CPE contra o Villepin (ainda me lembro da cara dele na tv a dizer que recuava) e logo a seguir foram votar no Sarkozy, que faz o Villepin parecer um menino de coro.

É verdade que os sindicatos estão muito mais organizados e que temos isso a (re)aprender com eles. Têm solidariedade inter-geracional e inter-profissional, mas apenas intra-franceses e intra-classe média.

Aliás, quando houve a expulsão dos ciganos não se mexeram. Agora tocou-lhes no bolso, respondem porque lhes fica bem, têm que defender a sua imagem e depois passa-lhes. A realidade deles muda tanto quanto a nossa, só que eles abrem o telejornal durante uns dias.

Já em 2005 se dizia que parecia o Maio de 68 e tudo estava na mesma em 2007. Não mudou rigorosamente nada… ou melhor, mudar até mudou: entretanto houve a eleição do Sarkozy!

Claro que há muita coisa que acontece por manipulação dos media. Quando foram as manifestações contra o CPE eu estava em PAris e a família dizia-me para eu não sair à rua, que estava tudo em chamas, que era uma guerra civil. De facto, era isso que parecia a quem visse os telejornais. Dava-se um ênfase gigantesco a meia dúzia de protestos que descambavam e com quem os CRS (forças especiais) aproveitavam para fazer o gosto ao dedo em termos de brutalidade desmesurada.

Mas isso era isolado. O grosso das manifestações, com 1 a 3 milhões de pessoas era absolutamente pacífico, com carrinhos de bebé e crianças por todo o lado. Mas isso quase nunca se viu.

Ora, a receita é simples: mostra-se uns quantos cocktails molotov, diz-se que a polícia respondeu justificadamente, esconde-se a verdadeira manifestação, mistura-se tudo a abrir o telejornal e pronto. Ficam acordados todos os medos racistas, xenófobos, etc. Esconde-se a perseguição que a polícia faz em todos os bairros sociais, escondem-se as prisões de miúdos a caminho da escola por não levarem o BI; publicita-se muito cada vez que um criminoso apanhado por coincidência também é estrangeiro.
Os mesmos que protestaram foram depois votar Sarkozy.

Eu também acho que isto não pode continuar neste caminho em que o mercado e a finança têm o poder absoluto e que, se os ditadores anteriores cairam, estes também hão-de cair. Mas ainda não é desta. É preciso que o grau de desconforto seja mais generalizado, é preciso que a classe média deixe de ter como viver. Neste momento a maior parte das pessoas ainda pode ir simplesmente refastelar-se em casa a ver o Big Brother depois do dia de trabalho. Acho que as pessoas não se revoltam com o óbvio que vêem perfeitamente a chegar, precisam que a miséria lhes toque efectivamente para mudarem a forma de pensar.

Por isso, as manifestações e as greves são diferentes cá e em França, na organização, na periodicidade e na frequência. Em França há também o ponto positivo de as greves serem em geral bem aceites pela opinião pública. as pessoas dizem que lhes causa muita inconveniência não haver transportes, mas que entendem as razões da greve. Mas tudo isso é mais exterior que interior, não muda a essência da mentalidade da obediência a quem tem o poder, que neste caso não são pessoas, são entidades — a finança e o mercado.

Para a mudança interior, aquela que derruba regimes, é preciso que o europeu médio, que sai do emprego directamente para o sofá ou o pub não possa mais fazer isso. É preciso que até o sofá e a batata frita de pacote estejam fora do alcançe da maioria.”

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Esta notícia trouxe-me imediatamente à ideia uma enorme série de questões aqui ligadas.

Primeiro, dizia a Sra. Ministra que enquanto pianista nunca tinha recorrido a apoios. Claro que não, raramente um instrumentista se candidata sozinho a um apoio da DGArtes. O instrumentista é contratado para actuar nas actividades promovidas por uma entidade cultural, essa sim financiada pela DGArtes. Os seus honorários têm origem nos apoios, só que passam por uma entidade cultural (grupo, associação, etc.). Ou seja, este ano a Sra. Ministra, se estivesse activa enquanto pianista e não como ministra, estaria numa de duas situações:

– ou o seu empregador, sem resposta da DGArtes, tinha decidido avançar à mesma com o concerto e a ministra estaria agora já com o concerto feito à espera de pagamento, se este viesse e quando viesse;

– ou, se o seu empregador decidisse deixar todas as actividades em stand-by até haver uma resposta, teríamos então a pianista com a agenda meio marcada, sem confirmações, sem saber se iria fazer concertos e receber cachets ou nada disso; (além do problema da mudança de datas e das sobreposições de concertos que daí advém);

Estaria portanto a Sra. pianista, tal como todos os outros artistas, a comer sola de sapato cozida até … … …

 

 

Mas a questão do financiamento não acaba aqui.

Os grupos instalados, conceituados, que fazem parte do património cultural do país, concorrem aos mesmos subsídios e no mesmo plano que os jovens talentos, os novos grupos, etc. Para o grupo mais antigo é terrível andar de quatro em quatro anos a saber se continua ou se fecha. Achamos nós que a Cornucópia ou a Comuna são património da cidade de Lisboa? Nós, público, achamos isso, sim. Mas em qualquer altura pode acabar o financiamento e lá se vai o grupo.

Para os jovens é obviamente uma competição desigual. Sendo jovens, os currículos que têm a apresentar não se comparam aos dos directores, encenadores e actores dos outros grupos. E no entanto, em cada nova candidatura, pode estar escondido o “João Mota” dos anos 2030. Podemos nunca vir a saber…

Mas a Arte faz-se sempre de renovação. Todas as gerações são essenciais para um panorama rico e em constante inovação. É preciso que todas tenham o seu lugar. Era preciso que o que já é património fosse considerado enquanto tal, deixando a totalidade dos apoios para quem se está a instalar.

 

 

Mas há mais…

Não há quaisquer vistorias, auditorias ou controlo na renovação dos apoios. Significa isso que tanto são apoiadas as entidades de contas limpas como todas as outras, todas em pé de igualdade. Ora, se o dinheiro é pouco, se o 1% para a Cultura continuará a ser uma miragem durante muito tempo – eu sei o que diz a Ministra, mas sejamos realistas -, não seria esta uma forma relativamente simples e muito justa de atribuir dinheiro a quem o merece e trabalha honestamente?

Auditoria

Que se lixe a troika

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